Maíra

Maíra

                                                                 O NASCIMENTO DE MARIA LUÍSA

                                                                 

              Antes de começar o relato do parto, propriamente dito, gostaria apenas de comentar sobre o que aconteceu há pouco menos de duas semanas do nascimento da Maria Luísa. Estava fazendo pré-natal com um obstetra que, na 38ª semana de gestação, nos propôs marcar uma cesareana porque a bebê estava com uma circular cervical de cordão e minha placenta estava grau III. De acordo com ele, a placenta não estava repassando os nutrientes de maneira adequada para o bebê, o que poderia prejudicá-lo, e ele poderia entrar em sofrimento fetal caso eu entrasse em TP, estando a criança com aquela circular. Por essas justificativas “não muito convincentes”, resolvi procurar (desesperada e aos prantos) por outro médico, aos 45 do segundo tempo.

Me lembrei do curso do Casal Grávido do Hermes Pardini que havíamos feito e a Dra. Quésia foi quem ministrou a palestra sobre Parto. Fiquei apaixonada... Desde antes da gravidez, sempre pensei em ter parto normal, mas não sabia que a experiência poderia ser tão boa quanto ela falava. E tudo que ela dizia era exatamente o que eu sentia e desejava! “Tem mulheres que sentem prazer na dor do parto”. Me lembro disso até hoje! Achava aquilo tudo maravilhoso! E meu marido, por sua vez, achava tudo aquilo loucura, coisa de gente doida... (rsrs). Ah! E, coincidentemente, foi com a Dra. Quésia que eu fiz meus dois primeiros US, com 5 e 7 semanas de gestação! Olha como esse mundo é pequeno!

Marquei então uma consulta com ela para aquela mesma semana, no dia 01/10, uma sexta-feira. Minha DPP era 12/10 e, para minha alegria, nessa consulta a Dra. me falou que eu estava com 2cm de dilatação! Nos três dias seguintes perdi o tampão mucoso e sentia algumas cólicas no pé da barriga. Retornei à consulta dia 04/10: quase 3cm! Estava feliz, mas ao mesmo tempo sabia que poderia ainda demorar alguns dias para que a Maria Luís nascesse, ou também poderia ser naquele mesmo dia... Quem iria saber? Mas a Dra. Quésia achava que não passaria daquela semana (como ela adivinhou?!). Só que, então, ela me avisou que tinha uma viagem marcada para a semana do feriado do dia 12/10, e provavelmente ela não estaria aqui se a Maria Luísa resolvesse nascer naqueles dias. Ela me passou, então, para o Dr. Hemmerson e marcou para mim uma consulta com ele no dia 08/10, sexta-feira. Me deu também o telefone da Doula Isabel, para que nós marcássemos um encontro. Liguei para a Isabel e combinamos de nos conhecer no dia 07/10, quinta-feira à tarde.

Pois bem… Na madrugada de 06 para 07/10 eu dormi muito mal. Ou melhor, quase não dormi... Acordei a noite toda com cólicas, levantei duas vezes para ir ao banheiro, na tentativa de amenizar o incômodo, mas não adiantou. As 07hs da manhã resolvi levantar da cama e começar a observar. As dores estavam constantes, mas não tinham uma frequência exata… 4 em 4 minutos, 7 em 7, 8 em 8, 5 em 5… Por volta de 8:30hs entrei debaixo do chuveiro e falei das dores com meu esposo, que estava se aprontando para ir trabalhar. Resolvi ligar para o Dr. Hemmerson (neste dia a Dra. Quésia já estava longe, curtindo uma prainha). Enquanto eu conversava com o Dr., em alguns momentos vinha a contração e eu não conseguia nem falar! Aliás, mal conseguia prestar atenção ao que ele dizia, e torcia para que ele não me fizesse nenhuma pergunta naquela hora (hahaha!). Ele falou: “É… Parece que você está no início do TP. A partir de agora, se for mesmo TP, vai engrenar, e se não for, as dores vão diminuindo. Me ligue daqui umas duas horas e, qualquer coisa, você vem ao consultório para a gente dar uma olhada”. Ele falou também pra eu ligar para a Isabel. Liguei, e ela me deu umas dicas e foi me orientando, dizendo para concentrar na respiração, tomar um banho quente, e tentar permanecer o máximo de tempo em casa, antes de ir ao hospital. Pedi ao meu marido para não ir ao trabalho, pelo menos na parte da manhã, para ver como ficariam as coisas. Mas a dor não passava! As 10:30hs da manhã liguei para o Dr. novamente: “É Dr.… Parece que a coisa aqui engrenou!” Então fomos para a maternidade. A essa altura, as malas, lembrancinhas, enfeite de porta e tudo mais já tinha sido colocado no carro pelo meu marido, desesperado do jeito que ele é...

                            

 No caminho à maternidade, ainda passaríamos no trabalho dele para pegar algumas coisas e também pegaríamos minha mãe no trabalho. Chegamos ao hospital por volta de 12:30hs. E as contrações estavam fortes, daquelas que a gente “trava” quando vem a dor! Foi ali que conheci pessoalmente o Dr. Hemmerson, porque minha consulta com ele estava marcada para o dia seguinte. Me examinou: 5cm!!! E falou que eu ganharia naquele dia mesmo! “Ufaaa! É hoje!”, pensei... “Mas ainda deve demorar! Até chegar aos 10cm, vou ganhar lá pela madrugada a fora...”. Desci para ficar com meu marido, que estava na recepção fazendo minha ficha para internação.

    

 E as enfermeiras me viam e ficavam loucas: “Ela tá em trabalho de parto! Sobe com ela! Trás a cadeira de rodas! Coloca ela na maca! Faz isso, faz aquilo”. Parecia que, ou eu era o extraterrestre do lugar, ou eu fazia tanta careta que assustava todo mundo! Brincadeira... Eu estava até muito calma, tentava me concentrar na dor e na respiração (coisa que a gente perde nestas horas!!!) E só queria ficar em pé, andando pra lá e pra cá! A barriga doía muito e as costas também! Tipo aquelas cólicas menstruais fortes, porém multiplicadas por 10! (rsrsrs) Até que o porteiro me mandou subir e esperar em um dos quartos, enquanto saía minha liberação. Então ficamos eu, minha mãe e o Dr. esperando num quarto onde tinha uma outra mamãe em TP. Ela estava deitada de lado na cama, soro ligado, com a cara mais boa do mundo... Eu não sabia o que era pior: eu morrendo de dores, ou ela com cara de que não ia ganhar tão cedo! (Hehehe)

Eu não conseguia nem me sentar direito, pois parecia que tudo lá em baixo estava se abrindo! O Dr. Hemmerson perguntou se eu queria alguma coisa, uma água... Minha garganta estava muito seca... Depois de um tempo, alguém (que não me lembro quem) teve a brilhante idéia de me trazer aquela bola de pilates. Que ótimo! Sentar numa cadeira era inviável. Deitar, então, nem pensar! Eu ficava lá, me balançando de um lado pro outro e de vez em quando só apoiava a cabeça na cama que estava na minha frente. E depois de um tempinho o Dr. perguntou se eu não queria esvaziar a bexiga, pois poderia amenizar as dores. Na hora em que fui ao banheiro, senti uma pressão muito estranha lá em baixo! Até assustei e pensei “Será que a Maria Luísa começou a descer? Já???”. Como assim?! Não tinha nem duas horas que eu tinha chegado ao hospital com 5cm! Mal conseguia andar e o Dr. pediu para eu deitar um pouco na cama para ele verificar os batimentos da neném. Meu Cristo! Que tortura era ficar deitada! Quando a dor vinha, eu ficava em tempo de morrer! Ele então fez o toque novamente e que doooooor!!! Uma coisa horrorosa, era como se ele já estivesse tocando a cabeça dela (se é que realmente não estava!). Ele olhou para minha mãe e, com um sorriso e a maior calma do mundo, disse: “É vovó… Pode chamar a enfermeira!” Não acreditei, mas também minha cabeça não estava funcionando muito bem para eu perguntar se ela realmente já estava para nascer.

 Nessa hora minha bolsa estourou e veio a maca para me levar para a sala de parto. Detalhe: enquanto isso, meu marido ainda estava na recepção fazendo minha ficha! Eu não tinha trocado de roupa, mas acho que porque não deu tempo! (hahaha) Na maca, então, foram me levando e minha mãe me deu um beijo e eu disse “Tchau mãe! Te amo!” E ela foi chamar meu marido para dizer que já estava na hora. Em um dos corredores eu senti uma mão gelada encostando no meu braço e uma voz dizendo “Ei meu bem!” Era o meu marido! E as mãos geladas eram de nervosismo... (hehehe) Logo em seguida, a Isabel chegou e disse “Quase que não chego há tempo, hein...” A gente iria se encontrar nesse dia à tarde, para conversarmos, mas a Maria Luísa não quis esperar! A essa altura, eu já estava fazendo força quando vinha a contração, mas era algo totalmente involuntário. Entramos na sala de parto e eu passei da maca para a cama. A Isabel perguntou como eu queria ficar e eu disse “Não sei! Só não quero ficar deitada” Aí mandaram vir com a cadeira de parto. Me lembro de falarem para o meu esposo trocar a roupa e me lembro também de ter escutado o Dr. Hemmerson dizendo ao anestesista que eu não queria tomar anestesia nenhuma… (hehehe) É engraçado, pois naquela hora a gente sente tanta coisa ao mesmo tempo, e tanta dor, que parece que vamos para um outro mundo, ouvimos as pessoas como se nós mesmos não estivéssemos ali, e perdemos um pouco a noção das coisas! Acho que essa é a tal da Partolândia! Então levantei e a Isabel me ajudou a ir para a cadeira e prendeu meu cabelo com o elástico que eu usava. Eu suava muito e ela me abanava com um santo leque (rsrsrs). De novo eu falei que minha garganta estava seca e me deram um pouco de água.

 Eram umas 14:30hs, mais ou menos, e as dores cada vez mais fortes e mal davam trégua para eu respirar! Quando a contração vinha, eu me inclinava para frente, de cócoras, me agarrando numa barra de ferro que tinha na frente da cadeira, mas as pernas começavam a formigar, por causa da posição. E quando a contração passava, eu voltava para trás e me apoiava no assento da cadeira (só apoiava, porque sentar mesmo era impossível! E nisso eu fazia força quando vinha a contração e parecia que tudo em baixo ia arrebentar! Enquanto isso a Isabel me acalmando, me orientando, e Dr. Hemmerson incentivando “Já estou vendo os cabelinhos dela!”. Teve um momento em que ele falou para eu colocar a mão, quando viesse a contração, pra sentir a cabeça dela! E eu coloquei a mão e senti mesmo, aquela cabecinha molinha, já apontando! Dava para sentir a pressão embaixo e perceber que ela estava quase saindo! Eu fazia uns barulhos estranhos, aqueles gemidos de quando fazemos muita força! E Dr. Hemmerson falou: “Na próxima contração, você vai ver um círculo de fogo, vai sentir queimar, então você faz muita força, que ela vai sair” E lá veio a contração! Eu já tinha lido sobre o tal “círculo de fogo” e é nessa hora que o bicho mais pega! (rsrsrs) Parece mesmo que há um círculo de fogo lá embaixo, pois tudo queima e arde! Eu comecei a dizer “Tá saindo!!! Tá saindo!!!” (Eu não me lembrava que fiz isso... Quem me contou depois foi meu marido! Hahaha) Porém não foi nessa contração que a Malu saiu… Mas logo veio a contração de novo… Meu marido colocou as mãos nas minhas costas, me segurando (dizem que eu fiz um movimento como se fosse descer da cadeira! Hahaha Eu fiz isso???). Então, de olhos fechados, eu só conseguia pensar “É agora! Preciso fazer força! Deus, me ajuda!”. E, de repente, senti a cabeça saindo! Na mesma contração continuei a fazer muita força e saiu o corpinho! Olhei para baixo e vi minha filha linda! Ela nasceu as 14:45hs do dia 07/10, perfeita, minha Maria Luísa, eu nem acreditava que tinha conseguido! Passava as mãos na cabecinha dela e dizia “Ei princesa! Filhinha! Olha amor, como ela é linda! Nossa princesa!” Um misto de alegria, alívio, amor, prazer, satisfação!

 Naquele exato instante, toda dor, medo e angústia desapareceram! Ela chorava forte e bem alto! Peguei no colo e fiquei ali, admirando, sem acreditar… Beijei sua cabecinha sujinha, cortei o cordão umbilical… Minha filhinha, tão esperada, tão amada, estava ali, nos meus braços!

Logo em seguida, fizemos aquele relato em vídeo, gravado pelo Dr. Hemmerson, e depois voltei para a maca para fazer a revisão. Levei apenas dois pontinhos, mas que não fizeram nenhuma diferença na minha recuperação. Enquanto isso, meu marido ficou com a Maria Luísa no colo, conversando baixinho com ela sabe-se lá o quê... (rsrsrs). Não precisei ficar em observação no pós-parto e fui direto para o apartamento esperar minha pequena chegar do berçário, para passar o resto daquele dia (e para sempre) admirando e amando muito aquela florzinha linda!

 E foi assim, de um parto natural lindo, que nasceu nossa princesinha! De cócoras, sem soro, sem anestesia, sem episiotomia, com um médico e uma doula que foram fundamentais, meu marido amado que me deu todo o apoio que eu precisava, e o meu Deus, meu Senhor, que cuidou de nós em todo o tempo, derramando bênçãos e fazendo milagres, permitindo que tudo acontecesse perfeitamente assim. Se eu voltasse no tempo, faria tudo de novo, sem mudar nenhum detalhe, e passaria mais uma vez por essa emoção maravilhosa, que é sentir e ver pela primeira vez a filha gerada em meu ventre! Ah!!! E a circular de cordão? Estamos procurando por ela até hoje...


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