Relato do Nascimento da Ana Clara

Minha filha parecia não querer sair do aconchego de onde estava. A 41º semana havia chegado e nem sinal da Ana Clara. Eu comecei a ficar preocupada, achando que o parto teria que ser induzido. A data prevista era dia 15/03/2010. Na sexta-feira, 19/03, fiz o último ultrassom, porque meu médico, Dr. Marco Aurélio, queria ter certeza de que a placenta ainda estava em bom estado e de que haveria líquido amniótico suficiente. Tudo estava bem, o que significava que poderíamos esperar mais um pouco. Comecei a ler dicas na internet de como induzir o parto naturalmente: subir e descer escadas, fazer caminhadas, transar. No sábado, 20/03, eu e meu marido fomos para o Parque das Mangabeiras. Caminhamos bastante, subi e desci morros e escadas, fiquei na posição de cócoras e conversei com minha filha. Disse a ela que estávamos muito ansiosos para conhecê-la e que estava na hora de ela nascer, que ela não precisava ter medo. À noite, seguimos a dica número 3. Funcionou.
Às duas da manhã acordei sentindo uma espécie de cólica, mas nada desesperador. Achei que poderia ser a hora do parto, mas resolvi esperar um pouco, para ter certeza. Como moramos em uma cobertura, subi para o andar de cima e fiquei andando em círculos. Quando fui ao banheiro tive a certeza (assim eu pensava), de que o nascimento estava bem próximo: o tampão mucoso havia se rompido. Desci e acordei meu marido, que pulou da cama e já estava trocando de roupa, quando eu disse que ia ligar primeiro para o Dr. Marco Aurélio. Eram três horas da manhã. Dr. Marco Aurélio me fez algumas perguntas e disse para eu esperar até as contrações virem de 5 em 5 minutos e que eu tentasse dormir novamente. Mas isto era impossível. Meu marido voltou para a cama e eu, mais uma vez, fui para a cobertura e fiz minhas caminhadas em círculo. Às 5:00h da manhã, as contrações já estavam bem mais fortes. Passei a cronometrá-las. Fiz isso até às 6:00h, quando novamente liguei para o médico e para minha mãe, que queria estar comigo na hora do parto.
Dr. Marco Aurélio disse para encontrá-lo na maternidade Santa Fé às 7:00h e que eu podia tomar o café da manhã normalmente, mas não agüentei comer muita coisa, só uma fruta. Às 7:00h em ponto estávamos no hospital, de mala e cuia. Dr. Marco Aurélio me examinou. Estava com 3 cm de dilatação. Ele nos disse que o parto seria naquele dia, mas que ainda demoraria um pouco. Então sugeriu que voltássemos pra casa e aguardássemos lá. Foi o que fizemos. Minha mãe foi para a nossa casa e ficou do meu lado o tempo todo, cronometrando contrações. Às 14:30h, elas vinham aproximadamente de três em três minutos. Dr. Marco Aurélio me ligou para saber se estava tudo bem e eu disse que naquele momento eu preferia ir para o hospital.
A internação se deu às três horas, mas Ana Clara não nasceria até às 22:39h daquele domingo. No quarto da maternidade não havia muito o que fazer. Ouvimos música, meu marido ficou lendo, minha mãe atendia de cinco em cinco minutos seu celular, porque sua melhor amiga queria saber se Ana Clara já tinha nascido. Pedi a minha mãe que desligasse o telefone, pois a Cleusa estava mais insistente que minhas contrações. Dr. Marco Aurélio veio até o quarto, me fez uma sessão de acupuntura e trouxe uma bola de pilates, para que eu tivesse algum alívio. Mas eu não conseguia nem me assentar, nem me deitar. Fiquei em pé todo o tempo, andando pra lá e pra cá e indo ao banheiro, porque a cada contração eu sentia vontade de fazer xixi. A dilatação agora era de 6 cm.

Dava pena olhar a cara da minha mãe, ela estava sofrendo mais que eu. No fim da tarde ela já tinha olheiras profundas. Em determinado momento ela sugeriu que eu pedisse uma anestesia, só “um pouquinho”, mas eu não quis, pois tinha medo de não conseguir ficar de cócoras. À noite, vieram meus sogros, que também não agüentavam mais de aflição. Eu não queria ver nem conversar com ninguém, porque a dor agora era bem grande. Fui para o banheiro e fiquei sentada no vaso. Dr. Marco Aurélio veio para o quarto e ficou no maior papo com meu sogro. De repente caiu uma tempestade. O vento uivava lá fora e aí a luz acabou na maternidade. Ouvi a voz do doutor dizendo: “não se preocupem, temos um gerador”. Só que ele não funcionou no nosso andar! Continuamos no escuro, quando dr. Marco Aurélio se lembrou de que a cadeira ainda não estava na sala de parto, localizada no quarto andar. Estávamos no terceiro. Ele pediu ao Alex, meu marido, e ao Elmo, meu sogro, que o ajudassem a carregar a cadeira até a sala de parto. Minha mãe estava à beira de um ataque de nervos. Minha sogra rezava o terço o tempo todo. Enquanto isso, eu suava frio no banheiro e sentia minha filha se mexendo.
Eu achei que ela fosse nascer ali, dentro do vaso sanitário. Os três homens voltaram após alguns minutos e continuaram o papo. De vez em quando eles se lembravam de mim e perguntavam se estava tudo bem. Da última vez que meu marido me perguntou, a conversa lá fora era sobre a duplicação de alguma rodovia. Quase sem conseguir falar, eu pedi a ele que perguntasse ao Dr. Marco Aurélio o que nós estávamos esperando. Todos se levantaram. Minha mãe perguntou como eu iria até a sala de parto, porque “é claro” que eu precisaria de uma maca. O elevador não funcionava, pois o nosso andar estava às escuras. Dr. Marco Aurélio respondeu: ela vai caminhando, isso ajuda. E assim foi. Dr. Marco Aurélio foi na frente. Meu marido me deu as mãos e fomos caminhando pelo corredor. Eu não enxergava um palmo à frente do meu nariz. Atrás de mim vinha a procissão: minha mãe, minha sogra e meu sogro. Não me lembro quanto tempo durou essa caminhada. Só sei que meus passos eram de tartaruga, porque tinha a sensação de que se abrisse muito as pernas, minha filha cairia ali no chão. Subimos dois lances de escada. Quando finalmente cheguei à sala de parto, estava com 10 cm de dilatação. Minha mãe e meu marido trocaram de roupa, máquinas fotográficas a postos. Meus sogros aguardaram lá fora. Eram 22:00h.

Entre o intervalo de uma contração e outra, as enfermeiras me ajudaram a ir para a cadeira. Quando as contrações de expulsão vêm, não há como não fazer força. A bolsa só se rompeu minutos antes de Ana Clara nascer. Dr. Marco Aurélio disse: “Já está coroando. O cabelo dela é pretinho.” Acho que a passagem da cabeça é o pior momento em matéria de dor (gente, queima mesmo!). Mas, uma vez cabeça pra fora, é tudo muito rápido e, em segundos, seu bebê está em seus braços e toda a dor desaparece, como num passe de mágica. Dr. Marco Aurélio ainda nos deixou um bom tempo juntas, sem cortar o cordão. Tiramos fotos e eu tentei amamentar, mas Ana Clara não estava muito interessada em comer naquele momento. Alex cortou o cordão e depois todos se foram e eu fiquei para a sutura. Aí fui anestesiada e não vi mais nada. Ao contrário de outros depoimentos, tive uma laceração bem grande e tive que levar muitos pontos. Mas minha recuperação foi ótima, sem complicações.

Acho que o corpo da mulher está muito bem preparado para o momento do parto. A dor virá, com certeza. Mas, na hora da expulsão, tudo acontece como num transe. É como se houvesse um anestésico natural e, acredite, você sabe direitinho quando tem que fazer força, ninguém precisa te falar.
Algumas mulheres têm trabalho de parto curto, outras, bem longo, como o meu. Ao todo, foram mais de 20 horas entre a primeira contração, às 2:00h da manhã de domingo, e o nascimento, às vinte e duas horas e trinta e nove minutos. É preciso ter muita calma e paciência. Sou muito grata ao meu médico, pela tranqüilidade que ele me transmitiu e pelo apoio, durante todas essas horas. Depois, na filmagem, pude ver que ele segurou minha mão até minha filha nascer. Minha mãe fez as fotos do parto e meu marido, a filmagem. Embora eles achassem que iriam desmaiar em algum momento, apesar de emocionados, agüentaram firme até o fim. Hoje a recompensa do meu longo trabalho de parto está bem aqui do meu lado, super sapeca, me dando uma força pra escrever este relato...
P.S.: Minha mãe já me perguntou se o próximo bebê nascerá da mesma forma. E a resposta é: claro que sim!